AS MINHAS EXPECTATIVAS PARA O QUINQUÉNIO 2020-2024: Desafios alcançáveis para o nosso quinquénio I
Por Egidio
VAZ
Existem
alguns aspectos que gostaria de ver realizadas no quinquénio que inicia. Começo
pelos relatórios governamentais: a forma como os relatórios de actividades,
balancos de programas e planos dos governos são apresentados ao público
perturbam bastante o entendimento deste sobre a actividade do estado e do
governo. Estes devem melhorar para serem mais simples de ler e compreender e mais
úteis para o cidadão. Sugiro por isso que haja duas versões: uma técnica, para
efeitos de prestação de conta a este nível e para o parlamento e outra, de
fácil leitura, destinada ao público em geral, na qual o cidadão comum se revê.
Dizer que “a economia cresceu em dois pontos percentuais em comparação com o
período análogo” é diferente de afirmar que “as condições de vida melhoraram
ligeiramente em termos de preços, principalmente nos principais bens de consumo
como batata e tomate”. As duas redações não dizem a mesma coisa. Enquanto a
primeira serve aos técnicos, a segunda interessa o cidadão e o político na sua
relação.
Um
dos aspectos que ao longo de pelo menos 24 anos opôs a sociedade civil do
governo é, curiosamente, na forma como estes relatórios eram “irrelevantes” aos
cidadãos. Sempre se ouve dizer que “o que o governo disse não espelha a
realidade”, não necessariamente porque é inútil, mas porque o conteúdo é
amiúde, intangível ao cidadão comum. Quando há pouco mais de 15 anos trabalhava
para um governo estrangeiro, recordo-me de ter tido a obrigação de submeter
todas versões finais destes relatórios à uma comissão de redação para editá-los
para versões simples. Julgo que no caso moçambicano, este exercício está ao seu
alcance.
EDUCAÇÃO:
durante a cerimónia de empossamento, o Presidente falou na necessidade de
cuidar de quem nos educa. O professor. Quero acrescentar dois pontos. Primeiro,
melhorar a qualidade desse Professor, com formações e reciclagem e intercambio.
Não é fácil movimentar a maior massa laboral do Estado. Mas deve se fazer os
possíveis para que o professor seja continuamente adequado aos novos desafios.
Sabemos que já é difícil poder contratar mais professores, quanto mais reciclar
os existentes. O segundo aspecto é o das bolsas de estudo. O estado deve
otimizar as oportunidades de bolsas de estudo ao nível secundário e
profissional, dentro e fora do país e, principalmente ao nível superior
(licenciatura, mestrado e doutorado).
Existe
a sensação de que as bolsas de estudo estão sendo orientadas apenas para um
punhado de pessoas e nas cidades. Nas zonas rurais, onde o ensino secundário e
pré-universitário e técnico-profissional já não é novidade, existem poucas,
senão nenhumas oportunidades. Na verdade, as bolsas raramente são conhecidas;
seus mecanismos de aplicação quase obscuros e inacessíveis ao pobre cidadão!
Não basta que a mulher de César seja justa. É preciso que pareça também.
TRANSPARÊNCIA e COMPETIÇÃO.
AGRICULTURA
– não se irá atingir fome zero com preguiçosos. Motivar a agricultura para além
da subsistência é importante. Mas, mais importante ainda é motivar que os
jovens pratiquem agricultura comercial. O negócio de comida é o mais seguro de
todos, salvo em situações de calamidades naturais (cheias, secas ou outros, que
deverá seguramente ser assegurado). Isso começa por interessar essa nossa
juventude para desviar as suas atenções de sectores especulativos (BOLADAS)
para os verdadeiramente produtivos. A CTA e outras organizações de interesse
podem ajudar a materializar este objectivo muito estratégico. Confiar em
monoculturas pode implicar na repetição dos mesmos problemas coloniais.
SAÚDE
– O governo prometeu iniciar o PROGRAMA UM DISTRITO, UM HOSPITAL. Se a ideia é
boa é bem-vinda, o outro lado da moeda apresenta o desafio de formação de
quadros. Significa por outro lado que, com a mesma velocidade com que se ergue
um hospital, o estado deverá estar em condições de colocar pessoal médico e
equipamento. Tal representa um enorme desafio, nem sempre acessível à nossa
imaginação. Mas, se acontecer, será melhor. Precisaremos que o sector
energético complemente essa ambição, alastrando a energia elétrica a todos
distritos e postos administrativos, tal como enviesado.
SEGURANÇA
– espero que o Estado consiga controlar a insurgência, eliminar focos de
banditismo no centro e estancar a onda de raptos, com a identificação e
aniquilamento dos mandantes. Este deve ser o objectivo estratégico catalisador
dos demais esforços de desenvolvimento. Terei oportunidade de debater melhor.
JUSTIÇA
– financiar a formação de mais magistrados; assegurar a boa qualidade dos
serviços notariais, tornar GRATUITA e acessível toda a legislação produzida
pelo estado e modernizar a difusão da legislação.
Hoje
cingi-me em 5. Amanhã, voltarei com mais.
AS
MINHAS EXPECTATIVAS PARA O QUINQUÉNIO II
Egidio
Vaz | 28-01-2020
Dando
contiguidade a serie sobre as expectativas para o quinquénio, trago mais cinco
áreas do governo. Na minha opinião, existe um trinómio para o desenvolvimento
de Moçambique: eletricidade, estrada e energia. Esse trinómio é determinante
para a melhoria das condições de vida dos moçambicanos e influencia
positivamente em qualquer cadeia de valor. Fale da agricultura e outros setores
produtivos, sem viabilizarmos esse trinómio, a orquestra sai desafinada. Pensem
em grandes hospitais sem água e energia; escolas secundárias e de ensino
superior sem água e energia ou mesmo grandes plantações sem uma componente
hidráulica agrícola competente, nada feito. Pensem na nossa capacidade de gerir
melhor a água para assim moderar a violência das cheias ou mesmo otimizá-la em
represas. A par disso, temos um mundo de oportunidades no mar. Tem peixe lá e
ninguém os alimenta. A natureza já fez a sua parte. Todavia, é importante
assegurar e sofisticar a capacidade inspectiva. Há ladrões no alto-mar que
roubam nossos recursos. E cá em terra, bandidos andam a negociar licenças de
pesca a preço de banana e o estado não sabe ou se sabe é inoperante por
conveniência dos seus altos dignitários.
Transversal
a essa toda história está de novo a necessidade de melhorar o sistema de
prestação de contas. A forma como estes sectores prestam conta não é eficaz. O
que se sabe não interessa o povo. Falar da construção de estradas em zonas
rurais não faz muito sentido para um semianalfabeto urbano, já familiarizado
com o asfalto e, porque é narcisista, irá torcer o nariz. Mas associar esta
estrada à disponibilização de comida, já irá lhe interessar, na medida em que a
infraestrutura irá reflectir sobre o seu bolso. Da mesma forma, o Ministério do
Mar deve se esforçar em convencer o homem do interior, onde nem se quer passa o
rio, da sua necessidade, informando e comunicando sobre a sua contribuição na
qualidade de ministério económico para a economia e tesouro. O Ministério das
Finanças gere o dinheiro. Não é fabricante único das fontes de renda e do
orçamento e, por isso mesmo, o governo deve comunicar-se com o público com
recurso a teoria da colmeia.
Agora
vamos por partes:
1.
ENERGIA: para além da electrificação do país, que deve ser o motor do
desenvolvimento, espero também que o setor dos recursos naturais seja bem
conhecido. O setor é dos mais opacos no que o acesso a informação concerne,
apesar de ser dos mais lucrativos. A Iniciativa da Transparência no Sector
Extrativo não passou de um malogro. O sector empresarial mineiro é opaco, dando
a sensação de estar a ser dominado por gangsters e sempre associado à más
práticas: poluição de rios e solos, acidentes laborais, garimpo ilegal,
escravatura moderna e fuga ao fisco. É isso que maioritariamente transpira. É
IMPORTANTE MUDAR ESTA PERSPETIVA LÚGUBRE.
2.
HABITAÇÃO, RECURSOS HÍDRICOS, E OBRAS PÚBLICAS – este sector é o OBREIRO do
país. Não sei se será possível ainda neste quinquénio, mas gostava tanto que o
sector respondesse POR TODAS OBRAS PÚBLICAS DO PAÍS. Porquê? Pela sua vocação.
O que acontece é que cada sector tem seu sector de obras; lança concursos e
adjudica à sua maneira, com o mínimo de supervisão do sector. É como ter um
departamento da saúde no Ministério da Cultura e Turismo e sem nenhum oversight
pelo MISAU. O que gostaria de ver era que o MOPRH acabasse com essa anarquia,
propiciadora não só da má qualidade de, por exemplo, escolas, edifícios
governamentais, bem como anarquia de preços. Dou um exemplo: um hospital erguido
por uma ONG pode custar 2 vezes que um erguido com fundos do Estado, e
vice-versa, sem com isso significa melhor qualidade. Outro aspecto que gostaria
de ver era a padronização de tipologias de edifícios do estado. Com que se
parece uma residência do administrador do Distrito? E do posto Administrativo?
Como é uma escola secundária e pré-universitária? Associado a esta padronização
está também o preço, variando mediante a localização e acesso aos materiais de
construção. Por qualquer magia ou azar, essa prática foi abandonada para dar
espaço a trafulhices e oportunismo. Portanto, defendo a reconquista do
monopólio inspectivo das obras públicas pelo MOPRH para voltar a disciplinar o
sector de construção. Sobre a água, apenas rezo que cumpra com o prometido,
construindo represas, barragens e mais sistemas de abastecimento da água para o
povo.
3.
PESCAS, MAR, ÁGUAS INTERIORES – a par do que disse na parte introdutória,
gostava de ver o sector a ser um pouco mais agressivo na mobilização da
juventude para trabalhar o sector pesqueiro. Não apenas em moldes artesanais,
mas também em moldes comercialmente viáveis. Temos visto jovens chineses a
virem a Moçambique pescar camarão e outros crustáceos. Por que não podem ser
moçambicanos? E não devem ser apenas moçambicanos pobres; estou a falar de
moçambicanos bem instruídos, jovens, disponíveis em se endividar para investir
no sector pesqueiro. Tenho um casal amigo que pratica aquacultura; começou como
hobby e agora estão já em moldes comerciais. Não são pobres, mas decidiram
aumentar a renda aplicando suas poupanças neste sector. Vamos domesticar o
peixe para vendê-lo dentro e fora do país. Negócio de comida é 100% lucrativo.
4.
COMÉRCIO E INDÚSTRIA – Como tenho vindo a escrever e dizer em vários órgãos de
informação, a governação por objectivos exige que a máquina se comporte como
uma orquestra sinfónica. O Ministro Carlos Mesquita não será capaz de atrair
indústrias siderúrgicas se faltar energia; muito menos convencer indústrias
eletrónicas sem uma mão-de-obra minimamente formada. O melhor que eventualmente
poderá fazer será convencer cantineiros. Não é isso que queremos. Mesmo assim,
ainda é possível atrair, não comerciantes de feijão apenas, mas também
indústrias manufatureiras e aquelas capazes de empregar maior númeno de
pessoas. Estou a pensar, por exemplo, na cadeia de valor do sector agrícola, no
sector energético e de transformação. A par disso, seria bom pensar também na
legislação nacional para tornar o país ainda mais atrativo ao investimento
estrangeiro em sectores com potencial de empregar mais pessoas.
5.
NEGÓCIOS ESTRANGEIROS – este é meu queijo pois resume tudo o que se pode fazer
para alcançar o desenvolvimento que queremos. O Presidente já disse para não se
fazer de embaixadas locais para passar férias eternas. Eu concordo que os
nossos embaixadores façam mais; trabalhem mais. Quem quer ter uma ideia próxima
sobre o que um embaixador deve fazer pode olhar para o decano do corpo
diplomático em Moçambique, o embaixador da Palestina em Moçambique. Sem tantos
recursos, ele maximiza todos meios ao seu dispor, incluindo imprensa e receções
publicas para veicular a causa palestiniana em Moçambique e junto dos seus
colegas. Eu gostava que embaixadores de países como Eswatini ou Malawi, fossem
mais vocais; e não apenas lutar por viver em Nova Iorque ou Londres sem um
programa concreto. Não faz sentido que num país com embaixada, o país não se
faça conhecer, os equívocos sobre moçambique sejam desfeitos e Moçambique não
seja promovido. As embaixadas não devem ser conhecidas pelo seu quintal e
regularidade em promover saraus e churrascos para matar saudades de Moçambique.
Julgo que a nova ministra tem um trabalho grande para sacudir a poeira em
alguns consulados e embaixadas de Moçambique.
Tudo
o que acabei de dizer resume-se num argumento que ainda estou a solidificá-lo:
o emprego e melhoria de condições de vida de que o Presidente fala vai também
depender da capacidade dos seus ministros em mobilizar a juventude no
engajamento ao trabalho em sectores da sua competência. E isso passa por
apostar NO PROLETARIADO INTELECTUAL OCIOSO que não para de choramingar no
Facebook e outras redes sociais, manietado pela “indústria de desenvolvimento”
rendeira que incita os jovens à tomar atitudes indolentes perante grandes
oportunidades que o país oferece.
Vamos
desafiar a juventude a não ter medo de trabalhar. Vamos desafiá-los. Ao seu
nível, o Presidente já fez a sua parte.
1. Acesso a informação
2. Formação
3. Capital
4. Assistência técnica
5. Mercados.
São
as cinco principais coisas que o governo pode disponibilizar aos jovens para
que eles LIVREM O SEU POTENCIAL empreendedor.
"Dai-me
um ponto de apoio e levantarei o mundo" - Arquimedes de Siracusa
(Siracusa, Sicilia, Itália ca. 287 a. C. - ca. 212 a. C

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